segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O que ninguém te contou sobre Lutero

   Todo dia 31 de outubro eu vejo várias pessoas postando esta imagem. O problema é que ninguém nunca te contou a verdade sobre Lutero e eu, que o estudei durante dois anos e meio, vou contar.


 
    Martinho Lutero nasceu em Eisleben, na Saxônia (atual Alemanha), no ano de 1483. Estou Direito na Universidade de Erfurt, onde se formou e, no mesmo ano, entrou no convento dos Agostinianos - não porque tinha vocação, mas porque tinha medo. Uma das palavras mais presentes nos seus escritos é "medo". Medo de que? Já li em dois ou três lugares que ele havia matado em um duelo seu amigo Jerônimo Buntz. Em suas próprias palavras, “Eu fui monge, eu queria seriamente ser piedoso. Ao invés, eu me afundava sempre mais: eu era um grande trapaceiro e homicida.”.
   Lutero era uma pessoa extremamente paradoxal e confusa; ora afirmava uma coisa, ora algo totalmente contrário àquilo. em 31 de outubro de 1517 ele fixou suas 95 teses nas portas do castelo de Wittemberg, e muitas são contraditórias. Como:

5- O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

61 - Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.


24- Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

71- Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.

   Não só aí, mas em muitos outros livros Lutero se contradiz o tempo todo. Ora diz que só a fé basta, ora diz que não importam os pecados, ora diz que as obras são necessárias, ora diz que não devemos pecar. Ora diz que é preciso confessar ao sacerdote como forma de se humilhar, ora diz que a confissão não é necessária. Suas orações consistiam em amaldiçoar o Papa e o papado, que foi instituído pelo próprio Pedro; dizendo impropérios contra Maria que não teve coragem de escrever; e sobre Jesus diz que "(...) cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala João. Não se murmurava em torno dele: "que fez, então, com ela?", depois com Madalena, depois com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim Cristo, tão piedoso, também teve de fornicar antes de morrer."
    O fato é que Lutero NUNCA pregou contra o que estava errado, mas sim contra o que ele considerava errado. Foi chamado por vários padres e pelo próprio Papa para discutir suas teses, mas ele simplesmente ignorou e disse que fossem até ele. Ignorou também os que foram. Seus amigos começaram a chamá-lo de "Papa de Wittenberg" devido a seu comportamento. Ele se ocupou em traduzir a Bíblia para o alemão, e tal tradução ficou conhecida como pioneira, mas havia outras anteriores. Ele criticou a missa celebrada em latim, mas seus cultos também eram celebrados nesse idioma.
    Quando escreveu um livro pregando que todo cristão é livre, os camponeses se rebelaram contra seus senhores e causaram uma guerra. De início, Lutero apoiou os primeiros, mas percebendo que isso fazia com que perdesse o apoio dos príncipes, que queriam as terras da Igreja Católica e sem os quais ele não teria efetivado a divisão, mandou que os camponeses fossem mortos a pauladas, como se faz a cães sarnentos.
     Em suma, Lutero se tornou tudo aquilo que odiava, o que fez com que as pessoas ficassem muito confusas. A impressão que tenho após esses anos é que ele tinha problemas mentais e uma séria necessidade de atenção.
     
     Outra mentira na imagem diz que o demônio inventou o Halloween como forma de impedir as pessoas de saberem que nesse dia ocorreu a divisão protestante. Mas tal festa existe desde a Antiguidade, pois os celtas acreditavam que nesse dia os espíritos voltavam para tomar os corpos dos vivos e, para espantá-los, enchiam suas casas de objetos assustadores. Sua origem foi há mais de 2500 anos, enquanto Lutero dividiu a igreja há 498 anos.

      Claro que há muito mais coisas que não serão colocadas aqui, já que minha intenção com este post é somente mostrar que Lutero não é o santo que andam falando por aí. Caso alguém se interesse, posso indicar a bibliografia que li. Só indico que leiam os livros do próprio Lutero, se quiserem saber quem ele foi.
     Outra coisa que peço é que não pensem que escrevi isso só por ser católica. Ainda tenho meu primeiro artigo sobre ele, onde o defendia. Obviamente que ainda não tinha lido nenhum de seus livros.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Afinal, pra que serve a História?

   "Amo a História. Se não a amasse não seria historiador. (...) Amo a História - e é por isso que estou feliz por vos falar, hoje, daquilo que amo." (Lucien Febvre)





     "A História humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquina." (Ferreira Gullar)

     Mas afinal... Pra que serve a História? 

     A palavra História se origina do grego e significa "pesquisa", "investigação". Seu objeto de estudo são as ações do Homem no tempo e no espaço.
     Antes do surgimento da escrita só havia a chamada História oral, contada de pai para filho ou por viajantes que iam de cidade em cidade contando ou cantando as histórias. Essas narrativas eram importantes como forma de manter a identidade de um povo, uma vez que possibilitavam o conhecimento de acontecimentos em determinado lugar ou época, mas como "quem conta um conto, aumenta um ponto", elas acabavam sendo contaminadas por boatos ou más interpretações, e com o tempo acabavam olvidadas. Após o surgimento da escrita, conforme os Estados iam se fortalecendo, fez-se necessário registrar os acontecimentos importantes para que não fossem esquecidos, o que facilitava também a administração dos territórios, uma vez que os registros continham informações sobre eles. O problema é que, mesmo assim, cada um registrava os fatos de acordo com seus próprios interesses, uma vez que não só historiadores eram responsáveis por tais registros. 
     No século XIX criou-se uma metodologia para a História: o chamado Positivismo ou Escola Metódica. Para os positivistas, o Homem é um mero coletor de informações dadas pelas Ciências e, portanto, os documentos históricos deveriam falar por si só, sendo o papel do historiador somente organizá-los para possibilitar seu entendimento, o que tornou a História um conhecimento objetivo, assim como as Ciências Exatas.
     Em 1929 Lucien Febvre e Marc Bloch fundam, na França, uma revista na qual buscavam fazer uma História pensada, através da análise e questionamento dos documentos, possibilitando a  compreensão das mentalidades, do cotidiano e das diferentes durações do tempo, além de aproximar a História das outras ciências, principalmente da Sociologia. Tal corrente ficou conhecida por Escola dos Annales.
    A partir daí, podemos perceber que não só as ações dos grandes homens e mulheres constituem a História, mas também as ações de pessoas comuns, feitas no cotidiano. Todos nós somos agentes da História, que constitui nossa própria vida. Através dela, podemos conhecer a nós mesmos e aos outros. E, afinal, 

"(...) mesmo que a História fosse julgada incapaz de outros serviços, restaria dizer, a seu favor, que ela entretém. Ou, para ser mais exato - pois cada um busca seus passatempos onde mais lhe agrada -, assim parece, incontestavelmente, para um grande número de homens. Pessoalmente, do mais remoto que me lembre, ela sempre me pareceu divertida. Como todos os historiadores, eu penso. Sem o quê, por quais razões teriam escolhido esse ofício?" (Marc Bloch)